terça-feira, 3 de abril de 2007

O DOSSIÊ LEÃO

A trajetória do técnico não é lá um mar de rosas. Esconde questionamentos éticos e até uma misteriosa "tabelinha japonesa"




Leão: só o cabelo não continua o mesmo.

Publico um dossiê que analisa a trajetória do técnico Emerson Leão. Partirei, principalmente, da passagem vitoriosa do treinador pelo time do Santos em 2002. Caberá ao leitor identificar e refletir momentos muito peculiares da carreira de Leão. Apresentarei fatos. As suposições que aqui constarem, estarão embasadas em momentos distintos vividos pelo futebol brasileiro e pelo próprio técnico.

Até 2002, Emerson Leão era um treinador do segundo escalão. Mesmo após sua passagem pela seleção em 2000, não foi valorizado. Apontado como um técnico autoritário e exigente, foi contratado para tirar o Santos da fila de títulos. Tarefa que cumpriu com louvor. Sem nenhuma “estrela do futebol” no elenco santista, o treinador soube trabalhar com os jogadores jovens, que eram maioria no grupo. Foi um verdadeiro técnico de futebol e direcionou o time em importantes vitórias. A recompensa veio com o título inédito do Brasileirão. Como se não bastasse, lançou Robinho, Diego e cia. para o futebol. Estavam ali alguns dos jogadores mais promissores desta geração. Finalmente Emerson Leão era considerado um dos grandes treinadores do Brasil.
Junto com o título veio o assédio da imprensa e de torcedores, principalmente, a Robinho. Não era mais um elenco sem “estrelas”. Problemas como cor da chuteira, titularidade e pedaladas, antes inexistentes, começaram a atrapalhar o time do Santos. Mesmo assim o time conquistou o vice da Libertadores da América em 2003. Mas Leão provaria, dali para frente, que não conseguiria lidar com o ego de seus jogadores.
Depois de maus resultados em 2004, Leão teve uma saída tumultuada do Santos. A briga envolveu Vanderlei Luxemburgo – que se ofereceu para treinar o Santos, quando Leão estava no cargo. O treinador do Santos alegou falta de “ética” por parte de Vanderlei. Leão acabou indo para o Cruzeiro em 2004, time que até então era treinado por Luxemburgo. No clube mineiro não conquistou nada e fez má campanha com a equipe.
No final de 2004, Leão é contratado pelo São Paulo. O clube paulista traçou um planejamento ambicioso. O São Paulo havia fracassado em seu retorno à Libertadores em 2004. Mas em 2005 queria conquistar o título continental e o mundial no final do ano. Leão topou o desafio. E diante do planejamento do clube e da repercussão em caso de sucesso, Leão preferiu, mais uma vez, deixar seu próprio ego de lado.
Em sua passagem pelo São Paulo, Emerson Leão bancou alguns “medalhões”. Como, por exemplo, o atacante Luizão. Em contrapartida barrou outros, como o lateral-esquerdo Junior. Mas sem maiores tumultos dentro do clube, os resultados não tardaram a aparecer. O primeiro triunfo veio com a conquista do Campeonato Paulista de 2005. Enquanto isso o time voava na competição sul-americana.
Porém, com o São Paulo invicto na Libertadores da América e garantido para as oitavas de final, Leão anunciou sua saída do clube. Iria para o Vissel Kobe do Japão. Time que estava à beira do rebaixamento no campeonato japonês. Leão baseou sua saída prematura do São Paulo alegando ter uma divida de gratidão com o dirigente do clube, Miura Istoshi. Portanto usaria sua “ética” e abandonaria os títulos da Libertadores e do Mundial, que o São Paulo acabou conquistando naquele ano. Mas além da “ética”, especulou-se que Leão receberia 1 milhão de dólares por mês, durante três meses. Fato nunca confirmado. Afinal o time do Kobe acabou o campeonato daquele ano em último lugar. O treinador não correspondeu às expectativas do dirigente. Emerson Leão nunca ganhara um campeonato japonês. Havia dirigido Shimizu S-Pulse (92-94), e Verdy Kawasaky (96-97), em seus tempos de menor prestigio. Mas por que Istoshi acreditava tanto em Leão, a ponto de oferecer uma fortuna ao técnico brasileiro?

Para quem não se lembra, esclarecerei alguns acontecimentos do mesmo período da saída de Leão para o Japão.

O ano de 2005 ficou marcado como o começo da parceria Corinthians/MSI. O grupo de investimentos, MSI, apresentou um contrato que tinha como principal objetivo a exploração do futebol do Corinthians, durante um período de 10 anos. Diversos itens do contrato eram nebulosos. Principalmente o nome dos investidores e, conseqüentemente, a origem do dinheiro. Os torcedores se mobilizaram para que a parceria não acontecesse. Achavam que o clube estaria sendo vendido. Os protestos acalmaram quando o grupo de investimentos injetou dinheiro no clube, principalmente com contratações de impacto. Roger, Carlos Alberto, Nilmar, além das revelações argentinas: Tevez e Mascherano.
Para treinar esse novo esquadrão dispensaram o técnico Tite e contrataram o argentino Daniel Passarella. O treinador não correspondeu e foi demitido, após ser eliminado da Copa do Brasil pelo Figueirense e perder para o São Paulo por 5x1, em partida válida pelo Brasileirão. Quem assumiu o time, interinamente, foi o treinador das categorias de base do Corinthians, Márcio Bittencourt.
O novo treinador conseguiu aliar a vontade das revelações corintianas com o talento dos “astros” da MSI. O time ganhou um padrão de jogo, as vitórias reapareceram. A guerra entre a parceria e a torcida viveu seu único momento de paz.
Enquanto Márcio Bittencourt arrumava o time do Corinthians, Leão via seu time ser rebaixado no campeonato japonês. Ao término do contrato com o time japonês, o treinador voltou ao Brasil e se pôs à disposição no mercado. Por conta de seu alto salário, seriam poucos os clubes que poderiam contratá-lo. Com o campeonato brasileiro em andamento, a maioria desses clubes haviam contratado seus comandantes. O Palmeiras vivia uma situação complicada no campeonato e Leão foi contratado. A diretoria palmeirense cedeu a todos os caprichos do treinador. E este correspondeu classificando o Palmeiras para a Libertadores do ano seguinte.

Algumas questões sobre a saída de Emerson Leão do São Paulo nunca foram completamente esclarecidas. Por que Leão abandonou o time antes de tentar a conquista do título da Libertadores? Que dívida era essa, realmente, que Leão tinha com o dirigente japonês?
Sem entrar em questões particulares, e analisando através do futebol. Percebe-se um paralelo entre a saída de Leão para o Japão, e uma prática muito usada para a contratação de jogadores. No caso do jogador, o caminho costuma ser assim: ele atua em um clube brasileiro, é vendido para o exterior e pouco tempo depois reaparece, por compra ou empréstimo, para jogar em outro clube do Brasil. Mostrando que, na maioria das vezes, o jogador foi negociado consciente do seu retorno ao futebol brasileiro. Isso é feito para facilitar a negociação com o primeiro clube, e preservar a imagem do atleta. Que, às vezes, ressurge até mesmo no arqui-rival do seu antigo clube. Essa prática, controversa, foi muito utilizada pelo Palmeiras/Parmalat; Pelo Corinthians/Hicks; pela própria MSI; e atualmente o São Paulo se vale desses intermediários.
Será que Leão teria sido assediado pela MSI para treinar o Corinthians, quando era técnico do São Paulo?

Ao levantar essa hipótese, é impossível não lembrar da chegada de Emerson Leão no Corinthians após o Mundial 06. O presidente da MSI, na época, Kia Joorabchian não aprovava sua contratação. Não via com bons olhos o autoritarismo do treinador. Além do mais, Leão foi pivô da saída de Tevez e Mascherano do time. Em seguida, cortou Carlos Alberto da equipe após uma discussão. Todos estes jogadores eram grandes apostas da MSI e juntos custaram cerca de 35 milhões de dólares. Sendo assim, por que o Corinthians/MSI teria aliciado Leão em 2005?
Quando Emerson Leão chegou ao Corinthians em 2006, encontrou um time diferente do qual encontraria em 2005. O elenco sofrera poucas mudanças, mas o comportamento do time era outro. O Corinthians não era mais uma promessa, como em 2005. Era o atual campeão brasileiro e estava na zona de rebaixamento do campeonato.
Em 2005 a MSI havia investido alto em Daniel Passarella, mas ele não deu conta do recado. Treinadores de renome, como os investidores queriam, estavam bem empregados. Luxemburgo no Real Madrid, e Felipão preparando a seleção de Portugal para a Copa do Mundo. Em atividade no Brasil, no primeiro semestre de 2005, era Leão quem dava as cartas com o São Paulo. Como já foi dito, conquistou o Paulistão e estava nas fases finais da Libertadores. Se caso, Emerson Leão fosse contratado naquele momento, seria ideal para mostrar as pretensões da MSI e, também, para acalmar a torcida.

Então por que Leão não assumiu o Corinthians quando voltou do Japão?
Marcio Bittencourt havia acertado o time. A cada jogo a torcida acreditava mais no treinador da base corintiana. A MSI não é uma torcida. É um grupo de investidores. E para ver o retorno de suas aplicações, o time precisava ganhar e convencer, e isto estava acontecendo. Outra dúvida: e se Leão assumisse e o time começasse a perder? Essa preocupação assustava tanto os investidores, quanto o treinador. Emerson Leão não usaria o Japão como intermediário para preservar sua imagem, e depois entraria na vaga de um treinador empregado e, por hora, vitorioso. Afinal, ele é “ético”.
A saída de Bittencourt do comando time durante o Brasileiro, pouco teve haver com resultados. Afinal o time estava em segundo lugar quando ele foi dispensado. A diretoria alegou “inexperiência”, e trouxe para treinar o time Antônio Lopes. Que acabou assumindo um time em ascensão.

O momento que Leão vive, atualmente, é com certeza o pior de sua carreira. Ao contrário do que viveu em 2002, com o Santos, o máximo que o treinador conseguiu foi livrar times do rebaixamento, com campanhas irregulares. Em sua passagem por Palmeiras e Corinthians colecionou inúmeros desafetos. Fez questão de aparecer mais do que seus próprios comandados. Parece mais o Leão dos anos 90. Porém, ganhando 500 mil reais por mês. Ao sair do Corinthians agora, dificilmente algum clube aceitará pagar uma soma tão alta por seu trabalho. Ainda mais, porque além do investimento no técnico terá que investir também em um excelente relações públicas.
Em comparação com seu rival, Vanderlei Luxemburgo, há algo em comum: questiona-se muito a posição dos dois fora de campo. Mas Luxemburgo é unanimidade quanto à sua capacidade de dirigir um time e torná-lo campeão. Já Emerson Leão não consegue aprender nem com seus próprios erros.

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