
Antes de tudo, deixo claro que não me privarei de declarações bairristas e patrióticas neste comentário. Afinal, por que quando exaltamos nossos ídolos somos tidos por patetas? E por que quando os argentinos exaltam Maradona, são saudosistas?
Não estou me valendo da situação enferma que o hermanito se encontra. Pois, no seu caso, não é apenas força de expressão dizer que estou “batendo em bêbado”. Ao afirmar isto, não desmereço seus feitos dentro de campo. Desmereço e desprezo o que é Maradona na vida privada – e privada aqui cai muito bem. O maior ídolo da Argentina é um pesadelo para as mães. Nenhuma delas quer ouvir qualquer resmungo parecido com “Mamãe, quando crescer quero ser igual ao Maradona!”. O garoto corre o risco de receber uma surra daquelas.
Convenhamos. Maradona não soube respeitar sua condição de ídolo. Fez milagres com a bola. Mas jogou por água abaixo a carreira – e carreira aqui também cai muito bem. Ele não pode se queixar da falta de apoio para se livrar do vício. É amado e querido por toda a nação. Todas as vezes que o ex-jogador foi parar no hospital, e não foram poucas, a Argentina toda se mobilizou com devoção para lhe depositar forças. O problema de Maradona não é falta de talento, fama ou fortuna. Muito pelo contrário.
Ao que parece, o fato de ter sido um dos maiores jogadores de futebol do planeta não foi suficiente para Maradona. Ao entortar marcadores, tal qual a seleção inglesa na Copa de 86, ele entortou também a vida.
Maradona fora do campo é a antítese do Maradona dentro do campo. Conta-se às pencas os que viveram no círculo da glória e despencaram para o buraco negro da existência quando se viram excluídos. O argentino está entre eles.
A auto-imolação de Maradona é evidente. Conte-se os três piores vícios da humanidade. Agora conte-se os cinco. Agora conte-se os sete. E todos eles fazem parte do rol de decadência do fabuloso jogador.
Quando os argentinos chamaram Maradona de “Dios” ele levou ao pé da letra. Pensou ser inatingível, e mesmo depois de várias crises, não se deu conta que “Dios” só existe um. E definitivamente não é ele.
Acredito e torço para que Maradona saia do hospital. O que eu não acredito é em sua recuperação. Vislumbro mais chances de Zagallo ser o meia-esquerda na seleção de Dunga a Maradona repetir o gesto de Evita Perón e cantar para o povo da sacada da Casa Rosada.
Desculpem-me os argentinos. Mas seria cômico, se não fosse trágico.
*(com Marcus Vinicius Gomes)

Nenhum comentário:
Postar um comentário